sábado, 29 de dezembro de 2018

LIBERDADE (Dostoievski)


É destino do homem seguir a liberdade? É seguir a norma de fazer o que bem queira desde que não venha a ferir as leis dos homens comuns? Creio que para o romancista que "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser", não seja algo tão simplório assim.

As paisagens, os movimentos e as ações são para o romancista russo apenas um meio para materializar o que realmente lhe é de interesse: o homem e seus abismos espirituais. Esse ser que se debate entre a má liberdade e o bom constrangimento, certamente não tomará para si valores reles. O autor de Crime e castigo basear-se-á em teses que não são propriamente humanas, porém, pois estará sempre ligado às leis de Cristo. Um Cristo peculiar, um Cristo de Dostoievski.

A liberdade, para esse autor, assim como o bem e o mal, tema constante em suas obras, se apresentará em seu aspecto metafísico. Isso é, a liberdade mesquinha, aquele deslocado querer de ir e vir, pouco interessa a Dostoievski. Enquanto romancista, o que lhe interessa é a liberdade superior, embora os homens sejam quase sempre fracos demais para servir à liberdade, parafraseando Ivan Karamazov.

A Liberdade (que podemos então, nas intenções do romancista, grafá-la em maiúscula, de acordo com Wilson Martins) pode chegar a contradizer a liberdade política do senso comum, pois não é a prisão que consiste no seu inverso, mas as tempestades interiores, mas a consciência, mas a moral.

A vida do homem dostoievskiano, uma vida sem paisagem, uma vida voltada ao interior, faz pressupor que a lei dos homens lhe é insuficiente. Para ele, uma escolha que esteja de acordo com a maioria, mas de encontro com sua visão de mundo, provocar-lhe-á, certamente, momentos de remorso e culpa. A Liberdade, então, tem como único caminho o sofrimento e o flagelo interior. Um cumprimento de pena nada mudaria um homem que se julgou culpado. Não se trata da condição do ser que não vive em cativeiro, mas da condição do ser que está de acordo com seu juízo moral ferrenho.

Nesse jogo de recompensações morais, o suicídio, como faz Smerdiakov, é um aliado, porque há um tribunal inferior que o impõe. E a condenação constitui para esse tipo de culpado uma oportunidade de libertação. É a profundidade trágica do ser, que é explorada em sua obra, que guia o mundo aos olhos do romancista. Raskolnikov, indo para a Sibéria, não soltando o volume da bíblia, já se sentia reconciliado consigo e com Deus.

O humano em Dostoievski diz respeito aos problemas metafísicos. Sendo assim, o escritor russo, evidenciando os problemas humanos e super-humanos, constrói uma obra que se desenvolve sob o signo da tragédia. Quase não se vê em sua obra espaço para sentimentos mais comuns e aparentemente menos profundos, aos seus olhos, como, por exemplo, o amor romântico. Aliás, sentimento este que se passa apenas como um momento da vida do homem. E uso o termo 'homem' não como “ser humano em geral”, pois a alma humana tratada por Dostoievski é antes de qualquer coisa um principio masculino, completamente preso à unidade e à interiorização do ser, de acordo com "Dostoievski como romancista". Dessa forma, o amor, sendo uma arbitrariedade, violentaria essa interiorização. Não que não haja espaço para altíssimas temperaturas e sensualidade. Todavia, parece que a realização plena do amor desvirtua o ser da preocupação dos eternos problemas e mais profundos questionamentos que o atordoam.

Esse fato de que Dostoievski entende a alma humana como algo essencialmente masculino muito importa para a sua noção de Liberdade. Isto porque lhe parece que o ser essencialmente masculino é tendencioso a introverter-se. E o ser introvertido tem enorme tendência de forçar os outros à sua imagem, ou negá-los, para não destruir a sua ideia de como deve(m) ser.

Poder-se-ia dizer, então, que a introspecção é motivo para a existência dessa Liberdade em Dostoievski, porque deixa claro que esse ser julgará obstinadamente o objeto sujeito à sua projeção, e, sendo esse objeto a própria pessoa, esse precisará passar pelo juiz mais tirano que poderia haver: ele próprio. Berdiaev afirmou que Dostoiévski "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser." E esses vulcões são sempre retumbantes, segundo James Townsend.

Os filósofos mais intensos, os guerreiros mais honrados e os homens que se remetem ao âmago do agir, dos costumes e das leis que impõem a si mesmo, certamente poderiam ser personagens dostoievskianos. Mas, certamente, isso se trata de uma minoria, porque de nada importa a Dostoievski os seres que se distanciam sempre da dor e do sofrimento, pois nunca poderiam ter real inteligência e coração profundo.


FONTE: http://lounge.obviousmag.org/astronauta/2013/05/dostoievski-e-o-conceito-de-liberdade.html/

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

RESENHA: "O Mundo Como Vontade e Representação" - (Schopenhauer)


Arthur Schopenhauer é um dos maiores -e mais injustiçados- filósofos de todos os tempos. Todas as suas obras foram escritas com uma linguagem transparente e que permitem ao leitor compreendê-las sem maiores dificuldades em seu núcleo principal. O Mundo como Vontade e Representação foi publicado quando o filósofo tinha apenas 30 anos, o que é muito raro em filosofia. Schopenhauer viveu ainda muitos anos após sua obra principal, mas seu pensamento manteve-se fiel às suas ideias de juventude.

O livro começa com a seguinte afirmação: “Nenhum objeto sem sujeito.” Esta sentença define o idealismo de Schopenhauer e vai ser ampliada no restante da obra. Ele tem duas grandes influências para sua filosofia idealista, que são Platão e, principalmente, Kant. De Platão, Schopenhauer irá reter as Ideias, e de Kant, ele irá além de seu mestre, que dizia que a coisa-em-si é incognoscível, e a definirá como sendo Vontade. Schopenhauer rejeita o idealismo dogmático do filósofo britânico George Berkeley, apesar de reconhecer sua importância para a rejeição de uma filosofia em que o objeto seja mais importante do que o sujeito. Da mesma maneira, o materialismo, que é algo bastante frágil e deve ser descartado sem maiores problemas, Schopenhauer afirma ser injustificável. A maior parte do seu esforço é para combater o realismo tanto em filosofia como em religião.

O realismo filosófico já foi bem definido como sendo uma filosofia de objetos, que possuem uma existência independentemente de um sujeito que os perceba. Isto, porém, não nos deve cair em um argumento ingênuo do tipo que se eu não vejo uma coisa é porque ela não existe. Não é isso que Schopenhauer quer que acreditemos. O que ele afirma é que o universo, o mundo e tudo que faz parte dele necessita de um olho que os perceba, seja o ser humano ou outras formas de vida. Sem essa condição, não haveria razão para a existência para o universo. É inútil um Sol ou uma Lua se não há quem os veja e os compreenda. Schopenhauer não nega a existência da matéria; ao contrário, ele afirma que ela sempre existiu.

Precisamos ter em mente que Schopenhauer nega qualquer tipo de Criação de um Deus a partir do nada. Nele, ao contrário de Nietzsche, por exemplo, inexiste o problema de Deus. Como os Hindus e os budistas, Schopenhauer possui um pensamento no qual a teologia ocidental é superada. É uma metafísica muito mais ampla e que abrange a eternidade. Se nós seres humanos não existíamos em um determinado momento, não quer dizer que outros seres não possam ter existido. A matéria sempre existiu porque as Ideias platônicas são eternas e imutáveis, mas nelas existem. No realismo, todos os seres são jogados em um mundo que possui existência independente deles. Se nós deixássemos de existir o mundo continuaria tendo uma realidade, assim como o espaço e o tempo também teriam uma existência própria. Tudo isso é tomado como absurdo por Schopenhauer.

As Ideias de Platão são relacionadas por Schopenhauer como o grau máximo de objetivação da Vontade. A Vontade é a coisa-em-si kantiana, no entanto é preciso que a filosofia de Schopenhauer não seja entendida como uma nova teologia. A Vontade não possui pluralidade, e os diversos graus são os protótipos ou arquétipos, que serão retomados mais tarde por Carl Gustav Jung, são totalmente a priori. Todas estas Formas a priori, por causa da Vontade, precisam descer até a matéria ou “encarnarem-se” de diversas maneiras no mundo, no nosso ou em qualquer outro. Estas Formas surgem desde o grau mais baixo, como nos minérios, daí ascendem para as plantas, os animais, e atingem seu ápice no homem. Apesar de que possamos entender que somos apenas mais um dos seres lançados neste mundo, tão importantes quanto uma planta, Schopenhauer afirma que esta cadeia de seres depende do Homem para que continue a existir. Ele diz que se deixássemos de existir, todos os outros seres teriam a mesma sorte. Jung viu a necessidade que a Divindade possuía em descer a este mundo, e ela vai descer novamente pelo que ele entendeu, e podemos ver no pensamento de Schopenhauer um eco daquela afirmação evangélica: “quando eu for levantado da terra, atrairei todas as coisas a mim.”

O princípio de individuação acontece quando adentramos em uma determinada forma em um espaço-tempo. Este é a fonte do mal em Schopenhauer, porque ali, através do intelecto, percebemos as formas a priori do espaço-tempo. Somos apenas um fenômeno passageiro, e fora do princípio de individuação o intelecto não sobrevive. A Ideia está desde toda a eternidade descendo ao mundo, e para isso a matéria existe. É nela que a Forma é impressa. Não pode haver uma Criação do nada porque as Ideias são eternas e a Vontade Todo-poderosa. Não houve nenhum tempo em que elas não estivessem se manifestando em uma pluralidade de vidas em todos os lugares. Nós, lançados em um princípio de individuação, não somos a Ideia-em-si, mas apenas sua existência temporária na matéria. Como a Forma em Platão não é totalmente absorvida pela matéria, mas está temporariamente nela, a Vontade é manifestada como quer em diversos seres, mas ela não é absorvida integralmente neles.

Na filosofia de Schopenhauer, portanto, não há espaço para considerar a História como ciência e nem para teorias realistas-otimistas-históricas como o marxismo e o darwinismo. Não houve tempo em que a criação e os seres não tivessem existido. Nenhuma história, sociedade ou seres que estão caminhando para um estágio superior podem ser concebidos como pertencendo à Ideia-em-si.

Schopenhauer foi também um filósofo muito preocupado com a ciência. Existe nele uma filosofia da ciência que influenciará bastante Karl Popper. De início há sempre a necessidade do verdadeiro filósofo admirar-se com o mundo. Há de espantar-se com os fenômenos do mundo. Em seguida, para ser verdadeiramente honesto, não pode partir de livros ou de autoridades. Em outras palavras: quem se coloca sob a autoridade do Estado, da Igreja ou do dogma, não pode ser filósofo. Algo ensinado de forma excelente por Schopenhauer é que o mundo é realmente um vir-a-ser como viu Platão. Os seres existentes não são a coisa-em-si, a as Ideias só podem ser conhecidas de modo intuitivo. Como o mundo está em constante mudança, toda a ciência só pode ser uma conjectura. O método a ser seguido é sempre o dedutivo, partindo do universal ao particular. Se alguma ciência quisesse atingir a verdade pelo estudo isolado de todo fenômeno, seria impossível reunir tamanha quantidade de dados, diz o filósofo. Pretender ter uma teoria científica definitiva para qualquer área da experiência é não entender o que é ciência. Não é verdade, diz ele, que toda a verdade seja demonstrável. O conceito no qual a ciência está baseada precisa ser indemonstrável. Seria melhor, diz ele, que a ciência fosse fundamentada numa intuição a priori.

Schopenhauer dá outra excelente contribuição à filosofia da ciência quando ensina que as demonstrações são mais destinadas aos que disputam do que àqueles que estudam. Essas disputas são típicas do método erístico dos jesuítas. O método intuitivo sempre foi criticado por todos os que são apaixonados por demonstrações e disputas, afirma o filósofo. Ele também está certo quando afirma que o método lógico de Euclides é nocivo ao pensamento científico. Este método nos fornece apenas as razões do que alguma coisa é, mas jamais o porquê de as coisas serem como são. O método tão acertadamente denunciado por Schopenhauer de Euclides e Aristóteles de construir raciocínios por silogismos foi desacreditado por Platão em seu Parmênides. Pode apenas favorecer a memória, mas não a ciência ou a criatividade.

Um equívoco muito comum que os historiadores da filosofia exibem em relação a Schopenhauer é de destacarem exageradamente sua doutrina da arte. Ela não é a principal na filosofia dele de maneira alguma. Claro que é importante, mas é inferior à sua filosofia da ciência e sua moral. A arte, no entanto, funciona como uma válvula de escape temporária do sofrimento do mundo. Não que ele a valorize por si só, mas a arte é boa porque reflete a Ideia e faz cessar temporariamente a Vontade. Schopenhauer valoriza a escultura grega, arte pagã por excelência, e a pintura, arte cristã. Elogia os mestres da arte neerlandesa, mas não deixa de criticar obras que estimulem a vontade de alguma maneira, como a reprodução de comidas, bebidas, etc. Ele lamenta que os motivos da Antiguidade Clássica tenham sido colocados de lado em benefício das imagens bíblicas, porque ele considera os temas pobres como um todo. A música é para ele a arte suprema, pois independe da experiência e é parecida com a matemática neste sentido. Nem todos os povos criaram esculturas ou pinturas, mas todos fizeram e fazem músicas. A música, segundo ele, existiria mesmo que não houvesse o mundo.

Surpreendente em um filósofo é a preocupação com o corpo humano. Poucos prestam atenção a algo tão imediato. Schopenhauer antes de estudar filosofia, foi acadêmico de medicina. Não chegou a se formar, porém reteve esta preocupação com o corpo humano. Na sua filosofia, a Vontade é mais importante do que a razão; por esta causa, no corpo humano os focos da Vontade são os genitais masculino e feminino. Os genitais não obedecem ao princípio da razão. São raros os filósofos que escreveram sobre o sexo, e Schopenhauer foi um deles. Nietzsche, apesar do estilo bombástico, foi um donzelão que pouco entendia do assunto. Schopenhauer corajosamente aborda, no Volume II de sua obra principal, a homossexualidade. Lá ele ensina que a homossexualidade é um meio que a natureza encontrou para evitar filhos débeis. A homossexualidade surge no início da adolescência e depois da menopausa na mulher e na andropausa no homem, mesmo que eles tenham tido uma anterior como heterossexuais. Por ser algo que vem do mundo noumênico, o fenômeno da homossexualidade pouco se interessa por religiões e normas locais. Sempre existiram e sempre irão existir homossexuais em todas as épocas e países.

O suicídio é considerado por ele algo inútil, pois quem se suicida apenas mata o corpo fenomênico (alguns suicidas, especialmente homens, afirma ele, reconhecem em seus filhos este fenômeno e buscam matá-los antes de suicidarem-se), mas o núcleo noumênico continua o mesmo. Schopenhauer reconhecia a grande sabedoria da doutrina da metempsicose Hindu e de Pitágoras e Platão. O núcleo, saindo do mundo desordenado e impuro (tese esta de Platão), soprará novamente em outro lugar, e todo ciclo recomeçará. Schopenhauer, apesar de ter sido ateu, reconhecia nas religiões Hindu, Budista e nas ordens monásticas do catolicismo muitas verdades. Dizia que era inútil o aborto também, porque a vida tem que prevalecer para poder redimir-se. A redenção só poderá acontecer com a cessação da vontade de viver, que deve ser alcançada com práticas ascéticas e o estudo da mais alta metafísica. Apesar do mundo ter um significado moral, não é tarefa da ética prometer felicidade aqui e agora, como o fizeram Aristóteles e Epicuro. Nem mesmo é possível uma ética dos deveres como a de Kant. Ela também não consegue mascarar um profundo egoísmo. A salvação tampouco dar-se-á através de obras, pois Schopenhauer, reconhecendo em Lutero um antecessor nesta questão, dizia que a salvação é reino da Graça, e qualquer obra seria muito pouco dentro do princípio de individuação, e se assim não o fosse, a religião tornar-se-ia mero Pelagianismo.

O pecado original, que Schopenhauer vê como a única ideia aproveitável do Antigo Testamento, é a união da Vontade com o conhecimento. Por causa disso, todo o ser humano tem de pagar o preço. Cristo, nascido da Virgem, não poderia ter tido um corpo verdadeiro (que seria Vontade), e nisto Schopenhauer é abertamente Docetista, assim como é adepto de Marcião, pois via o ponto fraco do Cristianismo pelo fato de ser uma religião que possui dentro de si o elemento estranho de uma religião extremamente realista e otimista como é o Judaísmo.

O livro, assim como a filosofia de Schopenhauer, contém poucos elementos e é fácil de entender. A linguagem que ele utiliza o aproxima dos filósofos britânicos. Ainda que ele diga que buscou em Platão a base de sua filosofia, pela pouca importância dada à matemática, a rejeição da dialética, e o aspecto pouco positivo que ele dá ao mundo e ao universo no geral, é difícil ver em Schopenhauer elementos que o tornem um platônico.

FONTE: https://felipepimenta.com/2012/12/10/o-mundo-como-vontade-e-representacao-de-arthur-schopenhauer/_

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

SAIBA PORQUE DIZER NÃO AOS FILHOS É IMPORTANTE PARA O PRÓPRIO FUTURO DELES


O PAI QUE SABE DIZER NÃO AOS SEUS FILHOS ESTÁ COLABORANDO PARA UM FUTURO FELIZ DOS MESMOS.
Leia o texto a seguir e saiba porque...

UMA PSICÓLOGA QUE ASSISTIU AO FILME SOBRE A VIDA DE CAZUZA ESCREVEU O SEGUINTE TEXTO:
"Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora...As pessoas estão cultivando ídolos errados. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza?
Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível.
Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado.
No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.
São esses pais que devemos ter como exemplo?
Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora...
Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.
Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não.
Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.
Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria?
Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor.
Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissessem NÃO quando necessário?
Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor.
Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar... Não se preocupem em ser 'amigo' de seus filhos.
Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre."

KARLA CHRISTINE
PSICÓLOGA CLÍNICA


Filosofia: "Estudo da natureza da existência humana?"



O que é isto: a Filosofia? Se essa pergunta continua a ser feita é porque é um desafio a tentativa de respondê-la. Não há uma definição simples que consiga resolver a questão, pela própria extensão do conteúdo produzido que se convencionou chamar de “filosofia” e pelas diferentes respostas que os filósofos deram a ela no decorrer da história, muitas vezes refutando as interpretações de outros. Ou seja, a própria questão “O que é Filosofia” é aquilo que chamamos de “problema filosófico”: problemas que só podem ser resolvidos por meio da investigação racional, pois não podem ser constatados por meio de uma experimentação, como faz a Matemática, através de cálculos, ou de análise de documentos, como faz a História, por exemplo.

Vamos tomar a palavra “Justiça” como exemplo, pelo método histórico, nós podemos fazer uma investigação de quando essa noção aparece, em qual contexto, quais foram seus antecedentes, qual o sentido essa palavra teve em determinada época. Se dois sócios querem dividir os lucros da empresa de forma justa, ou seja, dividindo igualmente o lucro e os custos, a Matemática pode nos ajudar a partir de cálculos. No entanto, se tentarmos responder “O que é a justiça?” ou: “Faz parte da condição humana a noção de justiça?”, o único recurso que teremos será a nossa razão, a nossa capacidade de pensar.

Desde a invenção da palavra “filosofia”, por Pitágoras, temos diversos problemas filosóficos e diversas respostas a cada um deles. Para os pré-socráticos: a physis; para a Filosofia Antiga: a atividade política, técnicas e ética do homem; para a Filosofia Medieval, o conflito entre fé e razão, os Universais, a existência de Deus, a conciliação entre Presciência divina e Livre-arbítrio; para a Filosofia Moderna, o empirismo e o racionalismo, para a Filosofia Contemporânea, diversos problemas a respeito da existência, da linguagem, da arte, da ciência, entre outros.

Temos também uma diversidade de formas literárias da filosofia: Parmênides escreveu em forma de poema; Platão escreveu diálogos; Epicuro escreveu cartas; Tomás de Aquino desenvolveu o método “questio disputatio” em suas aulas que foram transcritas por seus alunos; Nietzsche escreveu em forma de aforismos. Por esses exemplos, que não esgotam a pluralidade da escrita e da atividade filosófica, podemos compreender que as formas de se fazer filosofia vão muito além dos tratados e das dissertações.

A compreensão que temos por vezes da Filosofia como uma atividade reservada a gênios e que, portanto, não precisa se preocupar em se fazer entendida aos demais humanos é baseada em uma compreensão da atividade do pensamento sendo superior à atividade da linguagem, como se elas estivessem dissociadas. Ora, não podemos ainda, por mais desenvolvidas que estejam as nossas tecnologias, expressar o pensamento sem linguagem e nem exercitar a linguagem sem que ela seja, antes, elaborada pelo pensamento.

Surgimento da Filosofia

A Filosofia, como conhecemos hoje, ou seja, no sentido de um conhecimento racional e sistemático, foi uma atividade que, segundo se defende na história da filosofia, iniciou na Grécia Antiga formada por um conjunto de cidades-Estado (pólis) independentes. Isso significa que a sociedade grega reunia características favoráveis a essa forma de expressão pautada por uma investigação racional. Essas características eram: poesia, religião e condições sociopolíticas.

A partir do século VII a.C., os homens e as mulheres não se satisfazem mais com uma explicação mítica da realidade. O pensamento mítico explica a realidade a partir de uma realidade exterior, de ordem sobrenatural, que governa a natureza. O mito não necessita de explicação racional e, por isso, está associado à aceitação dos indivíduos e não há espaço para questionamentos ou críticas.

É em Mileto, situado na Jônia (atual Turquia), no século VI a.C. que nasce Tales que, para a Aristóteles é o iniciador do pensamento filosófico que se distingue do mito. No entanto, o pensamento mítico, embora sem a função de explicar a realidade, ainda ecoa em obras filosóficas, como as de Platão, dos neoplatônicos e dos pitagóricos.

A autoria da palavra “filosofia” foi atribuída pela tradição a Pitágoras. As duas principais fontes sobre isso são Cícero e Diógenes Laércio. Vejamos o que escreve Cícero:

“O doutíssimo discípulo de Platão, Heráclides Pontico, narra que levaram a Fliunte alguém que discorreu douta e extensamente com Leonte, príncipe dos fliúncios.

Como seu engenho e eloquência tivessem sido apreciados por Leonte, este lhe perguntou que arte professasse, ao que ele respondeu que não conhecia nenhuma arte especial, mas que era filósofo.

Admirado Leonte diante da novidade daquele termo, perguntou que tipo de pessoas eram os filósofos e o que os distinguia dos outros homens.

(...)

[Pitágoras respondeu] Outrossim, os homens (…) comparam-se com os que vão da cidade a uma festa popular: alguns vão em busca de glória enquanto outros de ganho, restando, todavia, alguns poucos que desconsiderando completamente as outras atividades, investigam com afinco a natureza das coisas: estes se dizem investigadores da sabedoria - quer dizer filósofos - e como é bem mais nobre ser espectador desinteressado, também na vida a investigação e o conhecimento da natureza das coisas estão acima de qualquer outra atividade”.

Percebemos, por meio desse fragmento de Cícero que:

1) A fonte na qual ele se baseia para escrever sobre Pitágoras é Heráclides Pontico, discípulo de Platão, mas que era também influenciado pelos pitagóricos. No entanto, não se sabe da veracidade a respeito dessa informação, como nota Ferrater Mora que também observa que não é possível saber se “filósofo” para Pitágoras significa o mesmo que significaria para Platão ou Aristóteles.

2) Pitágoras em vez de se denominar como “sábio”, prefere se denominar “filósofo”, ou seja, aquele que tem amor pela sabedoria. Também percebemos que aparece nome “filósofo” e não “Filosofia” que, como atividade, tem origem posterior. Como se pode ver no fragmento, não havia na época uma “arte especial”.

O que alguns filósofos dizem sobre O que é a Filosofia:

Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.): “A admiração sempre foi, antes como agora, a causa pela qual os homens começaram a filosofar: a princípio, surpreendiam-se com as dificuldades mais comuns; depois, avançando passo a passo, tentavam explicar fenômenos maiores, como, por exemplo, as fases da lua, o curso do sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Procurar uma explicação e admirar-se é reconhecer-se ignorante."

Epicuro (341 a . C. - 270 a . C.): "Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem o canse fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz."

Edmund Husserl (1859-1938): "O que pretendo sob o título de filosofia, como fim e campo de minhas elaborações, sei-o naturalmente. E contudo não o sei... Qual o pensador para quem, na sua vida de filósofo, a filosofia deixou de ser um enigma?"

Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre tomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes”. (Para além do bem e do mal, p. 207)

Kant (1724-1804): “Não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar”.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951): "Qual o seu objetivo em filosofia? - Mostrar à mosca a saída do vidro."

Maurice Merleau-Ponty (1908-1961): "A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo."

Gilles Deleuze (1925-1996) e Félix Guattari (1930-1993): "A filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos... O filósofo é o amigo do conceito, ele é conceito em potência... Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia."

Karl Jaspers (1883-1969): “As perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta” (Introdução ao pensamento filosófico, p. 140).

García Morente (1886-1942): “Para abordar a filosofia, para entrar no território da filosofia, é absolutamente indispensável uma primeira disposição de ânimo. É absolutamente indispensável que o aspirante a filósofo sinta a necessidade de levar seu estudo com uma disposição infantil. (…) Aquele para quem tudo resulta muito natural, para quem tudo resulta muito fácil de entender, para quem tudo resulta muito óbvio, nunca poderá ser filósofo”. (Fundamentos de filosofia, p. 33-34)

(Com exceção das citações de Nietzsche, García Morente e Karl Jaspers, as demais foram transcritas conforme citadas por Sílvio Gallo em “Ética e Cidadania – Caminhos da Filosofia, p. 22)

Cicerone, Le Discussioni di Tuscolo, 2 vol. Zanichelli, Bologna, 1990.
GALLO, Silvio. Ética e Cidadania – caminhos da filosofia. São Paulo: Papirus, 2002.
GARCIA MORENTE, Manuel. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo, SP: Cultrix.
Nietzsche. Para além do bem e do mal. Prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Martin Claret, 2007.


FONTE: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/

RESENHA: "Os Demônios" - (Dostoiévski)



"A verdade verdadeira é sempre inverossímil, você sabia? Para tornar a verdade mais verossímil precisamos necessariamente adicionar-lhe a mentira".
Stiepan Trofímovitch

Afinal, os anjos existem? Os demônios existem? Para responder a essas questões é preciso dizer que ambos sempre estiveram no imaginário dos grandes escritores. Em Dante Alighieri, Goethe, Thomas Mann e entre muitos outros. Não só na literatura, mas também na pintura esses seres povoaram os corações e as mentes de grandes artistas. Os quadros de Bosch, por exemplo, o inferno e o céu foram divinamente realizados. Mas, no entanto, em “Os Demônios” de Dostoievski, esse ser vindo das profundezas do inferno ganha um “algo mais” que supera e muito as representações pictóricas. Esses demônios não são apenas estéticos, nem poéticos, muito pelo contrário, ganham carne e sangue. Os personagens são absolutamente reais e atuais.

Em nome de Cristo, vários holocaustos foram realizados contra o povo judeu. A Santa Inquisição não nos deixa mentir. Em nome de Alá, pessoas explodem bombas amarradas na cintura e incineram vários inocentes. Em nome do Bolchevismo, vários inocentes foram colocados em campos de concentração e mortos em campos de trabalhos forçados, vítimas da coletivização forçada e das perseguições políticas de Lênin e Stalin. Hitler, na Alemanha, incinerou milhões de judeus e adversários políticos em dezenas de campos de concentração. No Camboja, um milhão de pessoas foi morta sob o regime de Pol Pot ; na China de Mao, milhões perderam suas vidas por causa de um ditador sanguinário. No mês de julho de 2011, o atirador norueguês Breivik, em nome de um nacionalismo tosco liquidou a vida de 78 pessoas, e por aí vamos...

Mas a pergunta ainda persiste: como os demônios aparecem? Como todo demônio, ele sabe se colocar na pele de qualquer um. De um cristão ou islâmico radical, de um comunista, anarquista, socialista ou de um simples psicopata, para isso basta que ele encontre um ambiente fértil: o ambiente onde o descrédito e o niilismo povoam a vontade das pessoas. A descrença é o ambiente ideal para o aparecimento desses seres.

Friedrich Nietszche foi quem primeiro diagnosticou o niilismo como a “doença do século,” e o tomou como eixo temático e problema capital expresso na “Morte de Deus”. O niilismo é a desvalorização dos valores supremos e alcança o seu auge na morte de Deus, marcando o momento no qual se constata a perda de sentido e validade por parte dos valores superiores da cultura do Ocidente. Representa assim, o fracasso de uma interpretação da existência que por muito tempo auxiliou o homem a suportar a sua dor.



"O Deus russo já se rendeu a “vodca barata”. O povo está bêbado, as mães estão bêbadas, as crianças estão bêbadas, as igrejas estão vazias, e ouve-se nos tribunais: “um balde de vodca ou duzentas chibatadas”...”(pg. 409 e pg. 410)
É bom pontuar que a idéia de modernidade nasceu dentro de uma concepção cristã de eternidade e que postulará uma perfeição que não está fora, mas dentro da história. O trabalho substituiu a penitência, o progresso substituiu graça e a política a religião. A política moderna é um capítulo da história da religião. Os grandes movimentos revolucionários que tanto influenciaram a história dos últimos dois séculos foram episódios da história da fé: momentos do longo processo de dissolução do cristianismo e a ascensão da moderna religião política.



“Aqui, meu caro, uma nova religião está substituindo a antiga, por isso estão aparecendo tantos soldados, e a causa é grande”. (pg. 396)
Foram os jacobinos que pela primeira vez recorreram ao terror como instrumento de aperfeiçoamento da humanidade. Só com os Jacobinos é que se passou a acreditar que o terror de matriz humana pudesse gerar um novo mundo. Os Jacobinos começaram como um clube radical que logo passou a exercer forte influência no encaminhamento da Revolução Francesa. Graças a líderes como Robespierre, que transformaram o terror em parte integrante do programa revolucionário. Influenciados pela crença de Rousseau na inata bondade do homem, os jacobinos acreditavam que a sociedade se corrompera em consequência da repressão, mas podia ser transformada pelo método da força.

O terror era necessário para defender a Revolução perante os inimigos internos e externos, mas também era uma técnica de educação cívica e um instrumento de engenharia social. Rejeitar o terror por motivos morais era imperdoável. Uma forma mais elevada de vida humana estava ao alcance da mão – e até mesmo um tipo mais depurado de ser humano - mas para isso era necessário que a humanidade fosse purificada pela violência. Essa fé na violência foi transmitida para muitas correntes revolucionárias posteriores.

Sobre o contexto desta obra...

Dostoievski começa com uma epígrafe retirada do livro de Lucas do Novo Testamento:

"Quando Jesus encontrou um homem possuído pelo demônio desde muito tempo, e que habitava os sepulcros. E quando viu Jesus prostrou-se diante dele, exclamando, e dizendo com grande voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes... E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual o teu nome? E ele disse Legião; porque tinha entrado nele muitos demônios...E andava ali uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus permitiu. Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se no despenhadeiro abaixo, para dentro do lago e se afogou..."
Dostoievski não faz por menos e para ele, os espíritos demoníacos se apossaram de uma gentalha sequiosa de poder para lançar a Rússia no abismo.

O título deste romance foi extraído de uma de suas epígrafes que reproduz um excerto do Evangelho de Lucas citada acima onde Jesus exorciza um homem possuído por demônios que se identifica como “Legião”. O romancista sugere com isso o caráter coletivo e ao mesmo tempo anônimo desse demônio que possui ativistas em seu furor sanguinário e desmedido. Com o auxílio do evangelho, Dostoievski combate os demônios Nietchaiev, Bakkhunin e seu “Catecismo de um revolucionário” onde um de seus preceitos dizia: “A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal”.

O romance foi escrito entre os anos de 1870 e 1872, é um livro difícil e ao mesmo tempo fascinante, podemos desfilar um rosário de elogios, mas esse livro é antes de tudo, profético, sobre os destinos da Rússia, e sobre o século XX e por que não dizer XXI. É uma reflexão sobre uma nova época.

O tema dos Demônios surge com a chegada das ideias racionais e seculares da Europa Ocidental na Rússia vindas do jacobinismo. O romance é baseado em um fato ocorrido, um assassinato real de um ex estudante anarquista que mudou suas convicções e foi considerado um traidor sendo brutalmente assassinado com um tiro na nuca. O caso ficou conhecido como “O caso Nietcháiev”.

Nietchaiev organizou uma série de células revolucionárias compostas de cinco indivíduos que operavam na Rússia durante a década de 1860, em uma organização terrorista chamada “Justiça do Povo”. Seu objetivo era provocar uma revolta em toda a Rússia, em 19 de fevereiro de 1870, aniversário da abolição da servidão na Rússia.

No entanto, a “suposta” revolução sofreu um duro golpe quando Ivanov se opusera aos métodos ditatoriais e questionando os métodos fraudulentos de Nietchaeiv. Este respondeu às acusações de Ivanov, instigando a célula a que pertencia a assassiná-lo. O assassinato levou Nietchaiev a fugir para o exterior, mas ele acabou sendo preso e julgado na Rússia.

E vamos à história do livro...

O cenário inicial é uma sociedade provinciana e a medida que somos apresentados aos personagens, por um retrato físico moral e social carregados de densidade, eles assumem seus lugares gradualmente.

Stiepan Trofímovitch é um intelectual respeitado numa cidade do interior e vive à custa de uma viúva chamada Varvara Pietrovna que confia cegamente nele, considerando-o um intelectual “brilhante”. Podemos dizer que Stiepan Trofínovitch era uma invenção intelectual de Varvara, um sonho por ela inventado. Essa é uma relação que passa longe de algo harmônico , sendo marcada por efusões inesperadas e recolhimentos rancorosos.

Stiepan Trofínovitch é pai biológico de Piotr Stiepánovitch (o Nietchaiev do romance) que se formou no exterior e agora volta como líder de um quinteto clandestino que pretende solapar as bases dessa sociedade - que doente, vive mergulhada no inverno da desesperança liberal – e tomar assim as rédeas em suas mãos, erguendo as palavras de ordem de uma rebelião anarquista.

Na medida em que os personagens nos são apresentados, podemos perceber que muitos deles reaparecerão na Revolução Bolchevique, com a ficção se tornado realidade. F. Piotr, o líder, que tinha o poder geral; Stravoguin que possuía o “Don” do encantamento através de um discurso “humanista”, justo, ético, mas sua prática não condizia em nada com seu discurso, suas motivações eram autoritárias beirando ao asqueroso. Leiam suas palavras:


“Os "nossos" não são apenas os que degolam e ateiam fogo, e ainda fazem disparos clássicos ou mordem. Gente assim só atrapalha. Não concebo nada sem disciplina. Ora, sou um vigarista e não um socialista, eh! eh! Ouça, tenho uma relação de todos eles: O professor que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que, para conseguir dinheiro, não pode deixar de matar, já é dos nossos. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação são dos nossos. Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos. O promotor que treme no tribunal por não ser suficiente liberal é dos nossos. Os administradores os escritores, oh, os nossos são muito, um horror, e eles mesmos sabem disso! Por outro lado, a obediência dos colegiais e dos imbecis chegou ao último limite; os preceptores andam cheios de bílis; em toda parte a vaidade atingiu dimensões incomensuráveis, há um apetite feroz, inaudito. Sabe você, sabe você de quantas idéias prontas lançamos mão? Quando saí daqui grassava a tese de Littré, segundo a qual o crime é uma loucura; quando voltei, o crime já não era uma loucura, mas justamente o bom senso, quase um dever – quando nada um protesto nobre.” (pg. 409)
Outro personagem relevante é Erkel, um seguidor fiel das palavras de Piotr que encarnava os ideais da revolução; Chatov seria o (Ivanov) que ao apresentar dúvidas sobre os objetivos e métodos a serem alcançados é brutalmente assassinado; Fiedka Kártorjni, um assassino sempre disposto a matar por uns bons rublos.

Outros personagens que compõe o livro e são também centrais são Kirillov e Chigalióv. Mas deixemos que Chigliakov comente seus planos e suas teorias:


Depois de empenhar minhas energias no estudo da organização da sociedade do futuro, que substituirá a atual, convenci-me de que todos os criadores dos sistemas sociais, desde os tempos mais antigos até o nosso ano de 187..., foram sonhadores, fabulistas e tolos, que se contradiziam e não entendiam nada de ciências naturais nem desse estranho animal que se chama homem. Platão, Fourier são colunas de alumínio – tudo isso só serve para pardais, e não para a sociedade humana. Mas como a forma social do futuro é necessária precisamente agora, quando finalmente nos preparamos para agir sem vacilações, então proponho meu próprio sistema de organização do mundo.”




“...Partindo da liberdade ilimitada, chego ao despotismo ilimitado. Acrescento, não obstante, que não pode haver nenhuma solução da fórmula social a não ser a minha.” (pg. 391)
Podemos dizer que estão nesse discurso as bases do socialismo científico de Stalin.

O personagem do romance, Chigáliov, um importante teórico da organização, esboça sua teoria de sociedade “ideal”:


“No esquema de Chigáliov, cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Todos são escravos e iguais na escravidão,..., mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é baixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas,...e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis a doutrina de Chigáliov”.
E tem mais:


“Os escravos devem ser iguais: sem despotismo ainda não houve liberdade nem igualdade, mas na manada deve haver igualdade, e eis aí o chigaliovismo”.
E ainda, nas palavras de outra personagem:


“Conheço o chigaliovismo. Um décimo dos homens ganham liberdade e o direito ilimitado sobre os outros nove décimos. Estes devem perder a personalidade e transformar-se numa espécie de manada e, numa submissão ilimitada, atingir uma série de transformações da inocência primitiva, uma espécie de paraíso primitivo, embora, não obstante, continuem trabalhando...”.
Dostoieveski em “Os Demônios” faz um acerto de contas com o pensamento niilista e revolucionário professado pelos intelectuais infiltrados na sociedade russa, denunciando o papel dessa intelectualidade que, voltada para o materialismo utilitarista, despreza os valores identificados com a cultura e as tradições religiosas russas. É importante falarmos aqui sobre mais um ponto: sobre o papel do narrador em toda essa história. O narrador qualifica seu relato como uma crônica, ele é um narrador personagem, pois goza de informações privilegiadas, de testemunhas e vai preenchendo as lacunas da trama, ele é conhecido por todos e está sempre presente nas situações decisivas, mas sua presença não acrescenta em nada a trama. É um personagem transparente, sua atuação restringe-se ao seu testemunho, não é narrador onisciente, mas parcial. A sua fala é verossímil, até mesmo por ter sido tirada dos jornais da época, de um fato conhecido, o que já dá a esse narrador uma autoridade prévia com relação à veracidade da história.

"Os Demônios" é um gigantesco painel da Rússia pré-revolucionária, mas é também uma espantosa projeção do mundo contemporâneo, sendo por isso considerado uma profecia. O romance apreende o mecanismo vital e psicológico de almas vertiginosas que querem "transformar" o mundo por meio da violência e do terror revolucionário, num quadro de insolvência dos valores humanos e espirituais que nortearam o melhor da civilização ocidental.


“Então começará a desordem! O mundo marchará numa confusão jamais atingida. As trevas cobrirão os céus e a Terra chorará seus antigos deuses".
Dostoievski foi profético, acertou no alvo.


FONTE: http://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/os-demonios/2618_

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

RESENHA: "Aprender a Viver" - (Luc Ferry)


No prólogo de Aprender a viver, editado no Brasil pela Objetiva, Luc Ferry – nascido em 1951, e que foi ministro da Educação da França entre 2002 e 2003 – explica que o livro surgiu quase que como um desafio entre amigos. Quando estava de férias ao lado da esposa e de um grupo de amigos, pediram que ele improvisasse um curso de filosofia para pais e filhos. Desafio aceito, o autor obrigou-se “a ir diretamente ao essencial (…) sem recorrer a palavras complicadas a citações eruditas ou alusões a teorias desconhecidas” dos seus ouvintes.
O curso improvisado acabou servindo de base para o livro que, “reescrito e completado”, se dirige a um público de não especialistas, mas, como reitera Ferry, sem simplificar ou deformar as grandes obras do pensamento universal. A filosofia, no seu entender, “mais que as ciências históricas”, é a base para a formação do indivíduo e para a compreensão do mundo.

“Simplesmente porque a quase totalidade de nossos pensamentos, de nossas convicções, e também de nossos valores, se inscreve, sem que o saibamos, nas grandes visões do mundo já elaboradas e estruturadas ao longo da história das ideias. É indispensável compreendê-las para apreender sua lógica, seu alcance e suas implicações…” (pg. 15)

Soa parcial – e de fato é – um filósofo reivindicando maior grau de importância à sua área de estudo em relação às outras disciplinas das ciências humanas, mas fica difícil chegar ao final do livro de Ferry sem concordar com a sua premissa dada à execução e construção rigorosa de seu projeto. No livro, para melhor entendimento do leitor, o autor divide a Filosofia em cinco momentos:

1 – o início da filosofia com os pré-socráticos;
2 – Filosofia cristã, especialmente com Santo Agostinho;
3 – Filosofia Moderna, principalmente Kant, Descartes e Rousseau;
4 – Nietzsche, que, o autor reconhece, embora não seja nietzschiano, dividiu a filosofia em duas partes – uma antes e outra depois de sua obra;
5 – Filosofia pós-moderna, especialmente Heidegger, Husserl e Comte-Sponville.

Ferry mostra, por exemplo, alguns pontos em comum entre filosofia e religião, o principal deles, no seu ponto de vista, o de tentar explicar e indicar o caminho para o “bem viver” e no que elas se diferenciam. A religião, principalmente o Cristianismo, coloca a transcendência como um ponto vital de sua argumentação. O cristão costuma aceitar o sofrimento e os desígnios de Deus, por mais dolorosos que sejam, em troca da promessa da vida eterna, do Paraíso, num outro plano, após a morte.
Para aqueles que não aceitam a doutrina cristã, ou de qualquer outra religião, Ferry sugere algo mais plausível do ponto de vista racional e filosófico: “esperar menos” e “amar mais” (d)a vida são duas propostas bastante reiteradas ao longo de Aprender a viver, muito baseadas nos conceitos de Epicuro – filósofo grego que viveu entre o século IV e III a.c, também analisado por Botton, no segundo capítulo de seu livro (Consolações para quando não se tem dinheiro suficiente). Outro alicerce supostamente sólido para o “bem viver” e daquilo que é “certo, justo e bom”, segundo Ferry, seria sempre exercitarmos o livre-arbítrio de forma ética. Qualquer que seja a decisão que tenhamos de tomar, nunca deixarmos de nos questionar: “Posso fazer isso? Sim, se me fizer bem e se não for prejudicar ninguém”.

FONTE: https://ivanmelz.wordpress.com/tag/resenha-aprender-a-viver-luc-ferry/_

RESENHA: "O idiota" - (Dostoiévski)


O que Dostoievski e seu livro "O idiota" podem nos ensinar sobre ética e ser uma boa pessoa?

Falar de valores nobres no Brasil anda difícil. Em tempos de Operação Lava Jato e outras investigações vindas a reboque, a impressão que dá é que vivemos rodeados de pessoas cínicas, desonestas, com pouca ou nenhuma preocupação com o outro. Para que andar pelo caminho da retidão quando é tão fácil se corromper? Para que se importar com quem sofre se é possível viver de forma confortável? Pois Dostoievski nos faz pensar sobre essas (e muitas outras!) questões em O Idiota.

A narrativa gira em torno do príncipe Míchkin, um homem criado longe da Rússia devido a graves crises de epilepsia. Após longa internação na Suíça, esse jovem de vinte e sete anos decide se reinserir na sua sociedade natal, sem que tenha a menor ideia do que o aguarda. Sincero, bondoso e complacente, o príncipe é atirado com rapidez surpreendente em situações sobre as quais pouco entende e nas quais as suas elevadas qualidades mais causam tumulto do que solução.

É o que acontece na festa da bela Nastácia Fillípovna, já na primeira parte da narrativa. Essa mulher, que merece estudos por si só, é um dos grandes exemplos da sensibilidade do autor para com a alma humana. Criada por Tótski para ser sua amante, Nastácia desenvolve uma personalidade voluntariosa e irascível, a ponto de seguir seu abusador até São Petesburgo e instalar-se lá para infundir-lhe pavor. Na sociedade, é vista como louca e excêntrica, porém vamos percebendo, ao longo do romance, que suas ações impulsivas e radicais são apenas resultado de uma autoestima dilacerada, um grito surdo de ódio de uma mulher que se considera indigna perante as outras, culpada de ser quem é. Esse retrato profundo e pouco óbvio de uma jovem do século XIX nos é dado através dos olhos do príncipe Míchkin, que enxerga uma dimensão de Nastácia Fillípovna que ninguém mais vê. Em conversa franca com Aglaia, a moça de boa família por quem ele nutre grande ternura, afirma:



“Aqui não há nada demais que você não possa ouvir. Por que precisamente a você eu queria contar tudo isso, só a você, só a você, eu não sei; talvez porque eu realmente a amasse muito. Aquela mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais decaído, o ser mais depravado de todos na face da terra. Oh, não a difame, não atire pedra. Ela já se martirizou demais com a consciência de sua desonra imerecida! E que culpa ela tem, meu Deus? Oh, a todo instante ela grita, tomada de fúria, que não reconhece a sua culpa, que é uma vítima das pessoas, vítima de um depravado e canalha; entretanto, seja lá o que ela lhe diga, fique sabendo que ela é a primeira a não acreditar em si mesma e, de plena consciência, acredita, ao contrário, que ela… que ela mesma é culpada.” (p. 485-486)

Tal é o impacto que Nastácia Fillípovna lhe causa, tal a dor que vê em seu rosto desde o primeiro encontro entre eles, naquela festa histérica, que o príncipe termina por lhe propor algo absolutamente inesperado, que mais tarde perceberemos ser um gesto de extrema piedade.

O primeiro de muitos, na verdade. Em diversas passagens da história, a compaixão do príncipe espanta o leitor, como quando ele escuta com paciência inacreditável as mentiras do velho general Ívolguin, que jura ter sido pajem de Napoleão; ou quando é acusado por um grupo de jovens liderado pelo moribundo Hippolit de dever metade de sua fortuna a um filho ilegítimo de seu protetor. Essa segunda história, aliás, acaba sendo desmascarada, mas apesar da empáfia e má fé dos jovens, Míchkin chega a oferecer parte do dinheiro para o falso herdeiro, de forma a não humilhá-lo demasiadamente em frente a seus pares. Trata-se de ação, sem dúvida, que somente uma pessoa de caráter quase extraterreno teria, imbuída de um senso de justiça para além do razoável. Não à toa as referências para a construção do protagonista da obra foram duas figuras cujo idealismo e retidão ultrapassam todos os limites do homem comum: Dom Quixote e Jesus Cristo.

Como se pode imaginar, porém, a bondade do príncipe passa longe de ser bem compreendida pelas pessoas que o cercam. Por onde ele circula há um certo desconcerto com suas palavras e atitudes, que nunca deixam de causar impacto. Munido de uma sinceridade humilde, Míchkin confronta as pessoas com seus próprios defeitos e ações pouco nobres, fazendo-as refletir sobre quem são. Uma das personagens mais afetadas por esses momentos é Gánia, um jovem ordinário e ambicioso que se empenha em fazer a corte a Nastácia Fillípovna. No trecho abaixo, quando confrontado pelo príncipe a respeito de sua índole medíocre e de seu interesse unicamente pecuniário pela moça, percebe-se que Gánia sente um genuíno incômodo, sensação que permanecerá com ele e o impedirá de tomar uma atitude bastante rasteira num futuro capítulo:

“Os patifes gostam de pessoas honestas, o senhor não sabia? Mas eu… Pensando bem, em quê eu sou patife, pode me dizer conscientemente? Por que eles todos a seguem me chamando de patife? E sabe, depois deles e dela eu mesmo me chamo de patife! Pois bem, o que é abjeto é abjeto!

– Agora eu nunca mais vou considerá-lo um patife – disse o príncipe – ainda há pouco eu já o considerava totalmente um malfeitor, e de repente o senhor me alegrou muito – eis uma lição: não julgue se não tem experiência. Agora eu vejo que não se pode considerá-lo não só um malfeitor como também um homem demasiadamente estragado. Para mim o senhor é apenas uma pessoa das mais comuns que pode existir, apenas muito fraca e nem um pouco original.

Gánia deu consigo um risinho cáustico mas ficou calado. O príncipe notou que a sua opinião não o havia agradado, ficou confuso e também calou-se.” (p.155)



O grande problema do príncipe é que a sua doação ao outro muitas vezes ultrapassa a linha do possível, fazendo com que a sua própria vida pareça não ter a menor importância. A relação que estabelece com Rogójin, o amante obsessivo de Nastácia Fillípovna, por exemplo, beira as raias da loucura, já que Míchkin o procura inúmeras vezes e chega a chamá-lo de irmão, mesmo que aquele o considere um rival e transforme-se numa grande ameaça. Em mais de uma ocasião o príncipe expõe-se de maneira perigosa a esse homem imprevisível, e o faz na melhor das intenções, a fim de tentar salvá-lo de seus impulsos destrutivos. Poucos chegariam a esse ponto, de teor insano. Afinal, qual é o limite da bondade? Vale a pena arriscar tudo pelo resgate do próximo?

Sem revelar muito sobre o final da obra, podemos indicar que Dostoiévski nos encaminha para essa resposta. O próprio título do livro já nos dá pistas – pois um homem com tamanha nobreza de caráter é reconhecido pela sociedade ao seu redor como um ser superior ou um simples idiota? Esses questionamentos, em meio a muitos outros, são o que fazem desse livro uma joia da literatura mundial. Poucos nos dirão mais verdades sobre a nossa natureza humana do que o príncipe Míchkin e seu notável criador.

Trechos extraídos de: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Idiota. São Paulo: Ed. 34, 2002.
FONTE: https://homoliteratus.com/vale-pena-ser-bom-o-idiota-de-dostoievski-nos-da-sua-reposta/_

RESENHA: "Guia Politicamente Incorreto da História da Filosofia" - (Luiz Felipe Pondé)


Quando vi a capa desse livro (muito bonita por sinal) pensei “vish, lá vem mais um livro complicado sobre filosofia que vai abordar pensamentos complicados desses filósofos da capa”. Então li na orelha do livro alguns pequenos trechos da obra, que sem dúvida foram deixados ali com o propósito de instigar, por exemplo: “O futuro do mundo é ser brega” e “somos basicamente covardes porque a vida é basicamente infeliz”, e fiquei um pouco tocado com essas afirmações (na verdade elas me revoltaram um pouco), assim, comecei a ler o livro pra, quem sabe, discordar com o autor. E quem disse que eu consegui?

Este livro não é um livro de história da filosofia, mas sim um ensaio da filosofia do cotidiano, mais especificamente um ensaio de ironia filosófica que dialoga com a filosofia e sua história, movido por uma intenção específica: ser desagradável para um tipo específico de pessoa (que, espero, seja você ou alguém que você conhece), ou, talvez, para um tipo de comportamente (que, espero, seja o seu ou o de um amigo inteligentinho que você tem). Mas, afinal, que tipo de pessoa? Esse tipo que vive numa “bolha de consciência social” (nunca entendi bem o que vem a ser “consciência social”) sendo politicamente correto, ao que, às vezes, me refiro neste ensaio como a “praga PC”. Se você é uma delas, tenha em mim um fiel e devoto inimigo. Desejo sua extinção. 

Incomodar, tocar na ferida. É justamente a intensão do autor, Luiz Felipe Pondé, nesse livro. Descritos como “ensaios de ironia”, cada capítulo aborda um tema polêmico da sociedade “politicamente correta” em que vivemos. Governos atuais, religião, feminismo, otimistas e outros assuntos são trazidos e analisados por Pondé, todos embasados em grandes nomes da filosofia e em experiências pessoas do autor, com interessantes analogias. Durante as 230 páginas, algumas ideias tidas quase como verdades absolutas pela massa são destruídas pelo autor, sem piedade. A linguagem do texto é fácil e gostosa de acompanhar, chegando a ser divertida, mas sem deixar de ser acusadora, crítica e coerente com os temas que aborda.

Esse livro é ideal para aqueles cansados de apenas escutar e concordar (ou nem tanto) com a opinião geral. Sem dúvida, muita gente ao ler os textos, se sentirá incomodada por se identificar com os “criticados”. Os outros mais céticos, terão um motivo e alguns argumentos a mais pra debater com os bobocas (palavra do autor) da “bolha de consciência social”.



FONTE: https://homoliteratus.com/resenha-guia-politicamente-incorreto-da-historia-da-filosofia-luiz-felipe-ponde/_