No prólogo de Aprender a viver, editado no Brasil pela Objetiva, Luc Ferry – nascido em 1951, e que foi ministro da Educação da França entre 2002 e 2003 – explica que o livro surgiu quase que como um desafio entre amigos. Quando estava de férias ao lado da esposa e de um grupo de amigos, pediram que ele improvisasse um curso de filosofia para pais e filhos. Desafio aceito, o autor obrigou-se “a ir diretamente ao essencial (…) sem recorrer a palavras complicadas a citações eruditas ou alusões a teorias desconhecidas” dos seus ouvintes.
O curso improvisado acabou servindo de base para o livro que, “reescrito e completado”, se dirige a um público de não especialistas, mas, como reitera Ferry, sem simplificar ou deformar as grandes obras do pensamento universal. A filosofia, no seu entender, “mais que as ciências históricas”, é a base para a formação do indivíduo e para a compreensão do mundo.
“Simplesmente porque a quase totalidade de nossos pensamentos, de nossas convicções, e também de nossos valores, se inscreve, sem que o saibamos, nas grandes visões do mundo já elaboradas e estruturadas ao longo da história das ideias. É indispensável compreendê-las para apreender sua lógica, seu alcance e suas implicações…” (pg. 15)
Soa parcial – e de fato é – um filósofo reivindicando maior grau de importância à sua área de estudo em relação às outras disciplinas das ciências humanas, mas fica difícil chegar ao final do livro de Ferry sem concordar com a sua premissa dada à execução e construção rigorosa de seu projeto. No livro, para melhor entendimento do leitor, o autor divide a Filosofia em cinco momentos:
1 – o início da filosofia com os pré-socráticos;
2 – Filosofia cristã, especialmente com Santo Agostinho;
3 – Filosofia Moderna, principalmente Kant, Descartes e Rousseau;
4 – Nietzsche, que, o autor reconhece, embora não seja nietzschiano, dividiu a filosofia em duas partes – uma antes e outra depois de sua obra;
5 – Filosofia pós-moderna, especialmente Heidegger, Husserl e Comte-Sponville.
Ferry mostra, por exemplo, alguns pontos em comum entre filosofia e religião, o principal deles, no seu ponto de vista, o de tentar explicar e indicar o caminho para o “bem viver” e no que elas se diferenciam. A religião, principalmente o Cristianismo, coloca a transcendência como um ponto vital de sua argumentação. O cristão costuma aceitar o sofrimento e os desígnios de Deus, por mais dolorosos que sejam, em troca da promessa da vida eterna, do Paraíso, num outro plano, após a morte.
Para aqueles que não aceitam a doutrina cristã, ou de qualquer outra religião, Ferry sugere algo mais plausível do ponto de vista racional e filosófico: “esperar menos” e “amar mais” (d)a vida são duas propostas bastante reiteradas ao longo de Aprender a viver, muito baseadas nos conceitos de Epicuro – filósofo grego que viveu entre o século IV e III a.c, também analisado por Botton, no segundo capítulo de seu livro (Consolações para quando não se tem dinheiro suficiente). Outro alicerce supostamente sólido para o “bem viver” e daquilo que é “certo, justo e bom”, segundo Ferry, seria sempre exercitarmos o livre-arbítrio de forma ética. Qualquer que seja a decisão que tenhamos de tomar, nunca deixarmos de nos questionar: “Posso fazer isso? Sim, se me fizer bem e se não for prejudicar ninguém”.
FONTE: https://ivanmelz.wordpress.com/tag/resenha-aprender-a-viver-luc-ferry/_

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